Quem não sabe escrever, desenha

O Aroma do Faisão

O Aroma do Faisão

O AROMA DO FAISÃO

Fiquei carente. Até que procurei, procurei, e conheci Cristina. No início, era só muito tesão. Parecíamos dois guerreiros fanáticos em uma luta terminal no leito. Depois, passamos a nos gostar. Logo adiante, nos amamos. Nunca havia amado daquela forma, com toda postura abobalhada que isso pode comportar. Ela fazia cafuné, eu a chamava de só minha. Então, vieram o ciúmes e as ofensas. Vivíamos discutindo pelos motivos mais fúteis: meus arrotos, o chulé dela, minha mãe moribunda. Enfim, nos odiamos. Ela me chamava de mané, eu a chamava de cretina. Desiludido, seis meses depois voltei para a esbórnia. Como a música do Nelson: “Ele voltou, o boêmio voltou novamente.” Porém, os amigos me ignoraram. Tacharam-me de ingrato. “Quando tem mulher, some. Agora, vem todo carente.” Tentei desencanar e me divertir sozinho. Mas sempre acabava a noite com um nível alcoólico totalmente desaconselhável. Não pegava ninguém, e ainda passava mal. Muito mal. Vomitei três vezes em um prostíbulo. Parei de frequentar esses lugares, e passei a ir a barzinhos com música ao vivo. Sempre só. Quando tocava Espanhola, chorava desbragadamente. Com Andanças e Canteiros, a mesma coisa. Fiquei carente de novo. Até que procurei, procurei, e conheci o Aderbal, nefrologista de renome. Era trinta anos mais velho que eu. Quem diria, descobri meu lado homossexual e atraído por coroas. E ele, seu lado papa-anjo, pois sempre gostou de pessoas mais velhas. Se saí do armário? Bom, não estava nem aí para os preconceitos dessa sociedade hipócrita. Além disso, não tinha mais amigos para me recriminar. Então, vivi o romance mais tórrido que pude em meus dezenove anos de vida. Frequentamos dezenas de boates alternativas, nossa turma era unida e solidária. Ríamos o tempo todo, nos divertíamos mesmo. Foi fantástico enquanto durou. Seis meses depois, após uma viagem a trabalho para a Antuérpia, Aderbal acabou conhecendo uma zoóloga turca que ia para Catmandu. Partiu com ela e nunca mais voltou. Estabeleceu-se como criador de uma espécie de faisão (Daphne ou Lophophorus), do qual extraía uma proteína rara de sua glândula uropigeana. Os negócios prosperaram, ficou milionário rapidamente. Na verdade, ficaram: ele e a maldita mulher, trinta anos mais velha – descobri através de amigos comuns. Fiquei carente mais uma vez. Entretanto, resolvi canalizar a libido para o autoconhecimento. Entrei para uma ordem monástica obscura do interior de Minas Gerais, terra natal de minha falecida mãe. Mudei de nome, de filosofia e de vida. Dezessete anos depois, em uma rara saída de minha clausura sem o hábito, passei em frente a um luxuoso restaurante em São João del-Rei e tive um pressentimento. Entrei, sentei e pedi faisão, em um só impulso. Claro, não veio nenhum Lophophorus. Mesmo assim, seu cheiro acridoce de chulé me lembrou, ao mesmo tempo,  Aderbal e Cristina. Fiquei duplamente carente.
Texto de André Calazans
Imagem de Marcelo Damm, inspirada no texto.

 

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Este post foi publicado em 23/08/2013 às 11:45. Ele está arquivado em Sem categoria e marcado , , , , , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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