Quem não sabe escrever, desenha

Vermelhos e Crus

Minha mais recente colaboração com o caneta, lente e pincel. Rodada invertida ou seja: imagem inspirada no texto. No caso, vídeo.

Quando eu perguntei se ele gostava de mim, ele respondeu
mecanicamente, “gosto, ué”, e percebi que ele estava mentindo. Mas ele
baixou os olhos e ficou levemente vermelho, como se sentisse uma
súbita vergonha da mentira, e eu entendi que aquilo mudava totalmente
o sentido da frase, porque uma mentira que você diz mecanicamente já é
diferente de uma mentira que você tem vergonha de dizer. Ele não sabe,
mas é por isso que eu volto. Eu podia dizer que não trabalho aos
domingos, ou nem atender o celular quando vejo o número dele. Mas eu
lembro daquela carinha vermelha e me dá vontade de saber o que tem
atrás daquela cor. Já era a terceira vez, a gente fazia tudo sempre
igual. Ele tirava a primeira, depois me oferecia sorvete, ligava a
televisão, a gente ficava de bobeira, ele fumava, eu lixava unha, ele
tirava a segunda e dizia que ia me chamar um táxi, que eu sei que é o
jeito de um cliente dizer pr’eu ir embora. A mulher, quando vi a foto
no porta-retrato, pensei que talvez ela estivesse morta. Não tinha
idade para morrer, mas existe câncer, bala perdida, acidente de carro,
tanta coisa que pode acontecer… Mas um dia alguém telefonou, e ele
falou “sei, sei”, depois falou “é claro, amor”, e eu percebi que ela
estava bem viva e ainda pedindo pr’ele passar no supermercado. Desde
aquele dia eu olho a foto de um jeito diferente. Essa mulher tão
feinha, essas rugas, esse sorriso amarelo, ela parece tão infeliz. Eu
sinto no seu cansaço a quantidade de sonho frustrado, as viagens que
ela não fez porque o menino estava com bronquite, a empregada que ela
não contratou porque tinha que sobrar para o curso de inglês, os
livros que ela não leu porque não queria ler mesmo, mas ela consegue
pensar que também foi por causa do menino ou do marido. Então penso em
todos os livros que eu li, penso naquelas tardes maravilhosas em Cabo
Frio, recordo aquele cliente generoso que me apresentou ao carpaccio e
ao petit-gateau, e me custa admitir que eu também sou infeliz. Mas eu
estou cansada de ser infeliz do meu jeito, queria tanto ser infeliz do
jeito dela! E, mesmo presa no silêncio da foto, seu riso agora é um
riso de zombaria. De alguma forma ela percebe que saiu vitoriosa, ela
sente que a infelicidade dela é melhor que a minha. É quando eu digo
que vou beber água, mas não estou com sede, eu quero é entrar mais uma
vez na cozinha, olhar os recados na geladeira, cheirar os vidrinhos de
tempero, espantar as mosquinhas que já começam a incomodar as frutas.
E de repente eu percebo que tem alguma coisa nessa cozinha que me
escapa completamente, algo que nunca vou conhecer, mesmo que me aposse
daquele homenzinho da sala e conviva para sempre com seu hálito e sua
calvície. É talvez buscando essa coisa misteriosa que abro a geladeira
e descubro, numa vasilha de vidro, os corações de galinha, vermelhos e
crus, quase como morangos. Eu sei fazer coração, é muito fácil, é só
refogar com tempero e cebola. Eu posso fritar agora e a gente come no
palitinho, enquanto ele descansa e vê televisão. Uma alegria boba me
invade, sinto que vou me apropriar de uma pequena parte da cozinha. A
mulher da foto já vai me olhar de outro jeito quando eu voltar à sala,
talvez assustada, acuada na sua moldura de porta-retrato. Mas eu chego
na sala e o homem está abotoando a calça, o cigarro está morto no
cinzeiro, ele pega o telefone e diz que vai me chamar um táxi.

No caminho para casa, passo num mercado vinte e quatro horas. Quando
os corações estalam na frigideira, eu ainda tenho a vaga lembrança de
um porta-retrato, uma mulher triste que teima em sorrir, um homem que
transa de meias e precisa de óculos até para ver televisão. Mas logo
depois estou engolindo a carne macia, e consigo acreditar que comprei
coração apenas porque é barato e fácil de fazer. Posso estar triste
agora, mas sei que, quando amanhã chegar, vou achar que hoje foi
apenas mais um domingo.

Ronaldo Brito Roque

Video criado por Marcelo Damm

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Este post foi publicado em 17/03/2010 às 16:42. Ele está arquivado em 1, video e marcado . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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