Quem não sabe escrever, desenha

100

100º post do caneta, lente e pincel, reproduzido abaixo. Logo depois da imagem, algumas observações sobre o processo, coisa que eu sempre quis fazer.

Josias era funcionário de uma repartição pública de horários rígidos. Cedo se sentava na cadeira, e dela saía para almoçar e mais tarde para retornar para casa. Todo dia, ao voltar, afrouxava a gravata, sem tirá-la do pescoço até a hora de se deitar. Gostava da sensação de poder respirar mais livremente, mas não conseguia se desvencilhar totalmente da elegância que o desleixo calculado lhe trazia. Sentava-se à frente do computador e abria o processador de texto, cumprindo a promessa de escrever algo ao fim do dia. Mas não conseguia escrever sequer uma frase. Era da época da máquina de escrever, e gostava daquela sensação de que só se podia ver o que já foi escrito. A máquina lhe revelava apenas as idéias já registradas. O computador lhe exibia a página inteira em branco, revelando um futuro tão vazio quanto a linha que tentava ocupar. A pressão do nada à sua frente era muita. Josias ia dormir.

Luciana era dermatologista. Sua vida era dividida entre a clínica, plantões em 3 hospitais e atendimento comunitário nas manhãs de quarta. Levava em sua bolsa uma máquina fotográfica, na busca por registrar tudo que passava tão rapidamente por seus olhos entre uma consulta e outra. Ao chegar em casa, descarregava no computador nunca menos de 50 fotos. Raramente se lembrava o contexto em que tinham sido tiradas, e mais raramente ainda via algum sentido nos objetos que lhe tinham servido de modelo. Fotos e mais fotos de tudo, retratos e mais retratos de nada. Luciana ia dormir.

Um dia, Josias não correu para casa. Afrouxou a gravata e pediu uma cerveja no bar em frente ao seu trabalho. Luciana estava sentada na mesa em frente a sua. Tirava fotos e se apressava em ver o resultado no visor LCD de sua câmera. Josias foi até ela.

– Sabe, há poucos anos atrás, eram raros os momentos que valiam alguns preciosos centímetros de filme.

– E hoje? Há muitos que valham megabytes da minha câmera?

Silêncio.

– Acho que na verdade temos megabytes demais pra registrar coisa de menos.

– Eu tiro foto de tudo. Tudo.

– E reclama do quê?

– As fotos não têm me dito mais nada.

– Eu todo dia tento escrever algo, nem que seja sobre meu dia. E acumulo um arquivo imenso de páginas em branco.

– Li um livro em que uma mulher escrevia sobre sua vida, e tudo o que acumulava eram páginas em branco.

– Esse livro é recente?

– Sim. Bem recente.

– Como é que alguém conseguiu escrevê-lo?

Josias e Luciana trocaram alguns beijos. Dançaram uma ou duas músicas e seguiram para a casa de Luciana. Josias tirou a gravata, e depois toda a roupa. Luciana também.

– Quero te fotografar. Nu. Agora.

E os dois brincaram de se fotografar a noite inteira. No dia seguinte, Josias ficou com as bochechas vermelhas ao receber por e-mail uma foto de Luciana, seguida dos seguintes dizeres:

“Há muito tempo uma foto não me dizia tanto. Já estou com saudade.”

Josias chegou em casa e afrouxou a gravata. Sentou-se à frente do computador e passou uma hora olhando para a foto de Luciana. Queria escrever algo, mas continuava bloqueado. Tirou a gravata e a blusa e o cinto – ah, como o cinto era incômodo – e a calça e as cuecas e as meias. Começou a escrever sobre a foto de Luciana. Apenas palavras explicando o que via. O que não era pouco.

Luciana usava uma camisa velha e tinha o notebook no colo. Mexia nas fotos, aplicava filtros, mexia nas matizes, brincava de laboratório e jurava que estava rodeada por luzes vermelhas e varais cheios de imagens ganhando vida e pingando. Achou velhos tubos de tinta e, na falta de telas virgens, por vezes se levantava e pintava as paredes. Desafogava de si cores que não se lembrava de ter visto. Um pequeno envelope piscou na parte de baixo da tela do computador. Era o texto de Josias, acompanhado da mensagem: “O branco das páginas não me assusta mais. Ao contrário, me inspira a preencher cada vez mais os espaços que cismam em aparecer à frente”.

Josias e Luciana trocam diariamente fotos e textos, pinturas e contos, poesias e vídeos, músicas, tudo. Eles começaram a conhecer a si próprios quando se viram pelos olhos um do outro. E agora há um tudo perante os dois, e toda forma de expressão é pouco para retratá-lo.

(obrigado a todos por serem as lucianas de minha vida. um beijo de quem é 100 vezes mais feliz há 100 posts)

Post número 100 do caneta, lente e pincel

Post número 100 do caneta, lente e pincel - clique na imagem pra ampliar!

Fui convidado para ser o autor da imagem do centésimo post do Caneta, Lente e Pincel. Além do óbvio orgulho, sobreveio uma certa apreensão. Afinal, o caneta atingia a marca das 100 obras postadas. Eu pensei: como tentar traduzir em uma imagem o que é o caneta, o que é essa mistura de textos com imagem, pintura, fotografia, ilustração (e de uns tempos pra cá video-arte, música experimental e performance!). O texto fantástico do Saulo, óbvio, por si só já seria uma bela representação dessa tessitura de influências, estilos próprios de cada um dos 22 artistas envolvidos nesse site (vale comentar que ao longo desses 100 posts muito mais que os 22 atualmente envolvidos participaram, afinal teve gente que saiu e gente que entrou), mas daí entra a minha parte. O quê fazer?

Então tentei, através do processo, reproduzir o que eu entendo como essa multiplicidade estranha de coisas estranhas. Eu tinha algo totalmente diferente em mente, até que eu me peguei olhando pra Tamires e veio a idéia. Primeiro, usar seu corpo como tela (sim, magnífico, mordam-se de inveja). Ok, misturar tipografia e ilustração eu reconheço não ser a parada mais original já criada, mas eu vi a possibilidade de encadear diferentes métodos pra chegar a um resultado e isso me encantou. Terminada a pintura, como fazer pra que aquilo ali fosse parar no site?

Veio então a segunda etapa, fotografia. Sou definitivamente o pior fotógrafo de todos os tempos e três anos de curso de fotografia na faculdade apenas serviram pra aumentar a minha frustração. Naturalmente as fotos ficaram com a qualidade que se espera de um amador tentando tirar fotografias artísticas mas eu já contava com isso (até porque eu não pretendia mesmo postar fotos dela – são só minhas).

De posse das fotos começou então uma nova etapa. Reproduzir a foto em pintura. Foi a primeira vez que eu de fato pintei. Nem lápis nem caneta, pincel mesmo. Nanquim, wash e aquarela.

Depois disso, a exemplo da Luciana do conto do Saulo, mexi nas fotos, imagens, pinturas, apliquei filtros, mexi nas matizes, brinquei de laboratório e jurava que estava rodeado por luzes vermelhas e varais cheios de imagens ganhando vida e pingando.

E é isso que temos. Espero que gostem.

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Este post foi publicado em 14/12/2009 às 13:55. Ele está arquivado em 1, ilustração e marcado . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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