Quem não sabe escrever, desenha

Maldição

Tudo começou em 87. Eu lembro, eu tava com oito anos na época, e isso aconteceu lá na casa de mãe. Tinha uma prima mais velha e naquelas brincadeiras de mostra-o-seu-que-eu-mostro-o-meu ela notou que na parte de dentro da minha coxa esquerda eu tinha um sinal bastante esquisito. Eu já tinha notado e sempre tive muita vergonha daquela marca horrenda. Lembro que ela tava lá, peladinha, eu tinha acabado de tirar a roupa, super nervoso, arrependido – o que ela ia pensar daquela mancha disforme? – e, no que ela tocou o sinal, de repente nos vimos vestidos de novo, sem que ela nunca tivesse tirado nada. Ela nem sequer se lembrava do que estávamos fazendo lá.  Olhou pra mim e continuamos brincando com uns playmobils que estavam espalhados no chão.

Aquilo me assustou. No dia seguinte fiquei horas no banheiro olhando praquela marca estranha. Parecia alguma coisa escrita numa língua estranha, umas consoantes sem sentido. Tinha um cê, um tê, um rê, um lê, outro tê e um zê. Apavorado, falei com mainha, que fez um padre-nosso escandaloso pra logo depois me dar uma surra de vara verde me chamando de mentiroso. Resolvi, então, que nunca mais ia falar disso pra ninguém, nem pros meus amigos. Não que eu tivesse muitos. Ou que eu tivesse algum, pra falar a verdade.

Enfiei a cara nos livros. Em parte pra pesquisar sobre que porra era aquela e em parte pra sair daquela cidade de merda de Bom Retiro d’Ajuda.  Naturalmente não encontrei nada, até porque a biblioteca daquele fim-de-mundo se tivesse meio livro que não fosse auto-ajuda já era demais. Mas consegui passar no vestibular, fui pra capital do estado

Vale Grande não fazia jus ao nome, devia ter umas quatro praças, no máximo e acabei indo morar na casa de uma tia minha. Não a mãe da minha prima, uma outra. A minha prima eu não quis ver mais. Fiquei com medo, vai que era coisa dela?

Passei pruma faculdade qualquer. Eu queria medicina, mas não deu pra passar. A minha curiosidade era mexer com computador. Nerd por vocação, fui aprendendo até que eu descobri o que diabos era aquela marca. Ctrl+Z. Undo! Epifania é pouco perto do que senti na hora. Tão simples! Desfaz! Desfaz tudo! A sensação de liberdade foi simplesmente imensa! .

Fui aos poucos experimentando como funcionava a coisa. Virgem e meio feinho, usei meus poderes pra pegar mulher. Ia nos bares, falava com uma menina, se não desse certo eu undozava, tentava outra conversa, até que rolava. Ficar teclando minhas partes íntimas me era um tanto constrangedor mas aos poucos fui desenvolvendo técnicas mais discretas. Na verdade notei que bastava dizer undo que tudo já estava resolvido. E como o undo realmente desfazia tudo, as pessoas nem sequer lembravam de eu ter dito undo, então estava ótimo.

Pra uma pessoa como eu, isso pra mim foi uma mudança e tanto. Em pouco tempo eu já era conhecido na cidade, os caras me admiravam, as meninas queriam porque queriam saber o que que eu tinha de tão especial. Os trabalhos da faculdade eu fazia de qualquer jeito. Entregava qualquer merda, via a reação, via o que tinha dado certo, undo, undo, undo e fazia de novo. Nota máxima. Sempre.

As minhas conquistas amorosas iam de vento em popa, mas junto a isso veio a cerveja, a cachaça e um inevitável deslumbramento. Arrogância. Certa vez, bêbado, confidenciei a Carlos, um conhecido, sobre meus poderes. Ele namorava Fernanda, a menina mais linda da cidade. Amigos nos tornamos e, aos poucos, ia arrancando segredos dele, undozando em sequencia, e fui minando o namoro dos dois. Naturalmente usava do mesmo expediente com ela, até que nos apaixonamos.

Cego de paixão, prometi a mim mesmo que não mais undozaria nada com Fernanda. Só com ela, naturalmente. E cumpri minha promessa. Nos afastamos de Carlos e seguimos nossa vida juntos. No segundo ano de casamento veio a notícia que eu seria pai. A alegria era imensa, minha carreira havia deslanchado e eu estava feliz.

Mas Carlos nunca perdoou a traição. Esperto, esperou meu filho nascer pra se vingar. Começou a espalhar meu segredo. Eu havia me esquecido de desfazer a confidência! As pessoas da cidade passaram a me olhar de modo estranho, não era mais bem aceito em lugar algum, tratavam mal Fernanda, que me hostilizava de volta. A capital de um estadinho de merda não deixa de ser uma cidade de merda e, aos poucos vi meu mundo ruir. As velhas praguejavam esconjuros quando eu passava, minha casa foi pichada com “Bruxos”, “Demônios” entre outras.

Fernanda me deixou e levou meu filho embora. Fui posto pra fora do meu emprego e até minha mãe me mandava cartas dizendo que preferia ter parido um rolo de arame farpado do que um monstro. Palavras dela, maldita.

Desgraçado, voltei a beber, mas isso não bastava. Eu sabia como reverter a situação. Eu podia undozar minha vida até o momento em que confidenciei meus poderes a Carlos. Eu mataria meu filho que eu tanto amava, teria que reconstruir tudo. Eu estava cansado. Ele sabia disso e se antecipou.

Sobrinho favorito do coronel, Carlos preparou uma arapuca pra mim que, bêbado, me vi cercado, jogado no porta-malas de um carro e levado até o vale que dava nome à capital. Vale Grande.

Chegando lá vi em seus olhos o que ele pretendia. Tremi. Fui arrancado do carro e atirado ao chão. Carlos, com uma arma na minha cabeça gritou:

-Você sabe o que fazer, não sabe?

-Não!

-Grita, filho-duma-puta!

Sua boca espumava, seus olhos injetados de raiva, o cano da arma apertava meu crânio. Sentia minha pulsação na arma, sentia o medo de morrer mas, acima de tudo, ouvia…

-Grita logo, seu filho-duma-puta, ou tu não vai viver pra ver outro dia, seu monte de merda dos infernos.

E eu ouvia. Me desesperava ouvindo. Um chute no meu saco me fez entender que não havia muito o que pudesse ser feito. Ou desfeito. Carlos se aproximou de meu rosto, seu bafo na minha cara, um fedor que vinha das tripas de um demônio e, com um sorriso doentio na cara, falou calmamente:

-Grita, meu amigo. Você não tem escolha.

Cuspi em sua cara e gritei:

-UNDOOOOOOOO!!!

Os bastardos então fizeram um silêncio como que coreografado enquanto eu ouvia meu grito ecoar no vale rumo ao infinito. UNDOOOOO… Undoooooo… undoooooo…Desfiz. Desfiz tudo. Desfiz meu filho. Desfiz minha família. O eco ressoava sem cessar enquanto via minha vida inteira sendo desfeita. Meu casamento, minha carreira, conquistas, trabalho, erros, juventude, livros, infância. Minha barba, meu corpo, tudo, TUDO!

Até que não sobrou nada.

Nesse momento devo estar de novo em 78. Vou nascer. A maldição da minha vida vai continuar. Sei tudo o que passei, sei o que me espera, sei do que serei capaz.

Sei que erros posso cometer e quais espero conseguir evitar.

Mas eu sei que vou encontrar Carlos.

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Este post foi publicado em 19/05/2009 às 00:23. Ele está arquivado em crônica sobre nada, Generic post e marcado , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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