Quem não sabe escrever, desenha

O Bardo

Noite. Chovia. Já chovia há três domingos quando, de súbito, chega o bardo à taverna: capa molhada, botas enlamaçadas mas a cítara, impecável. Como de costume praguejou impropérios aos presentes, que responderam da mesma forma.

Se desfez então da capa, cuspiu em direção à porta pra espantar os demônios do inverno que se aproximava, tomou seu lugar ao balcão, empunhou seu instrumento e, com voz grave, anunciou:

-Caros convivas! Muitos aqui me conhecem e sabem que venho de uma longa joranada! Trago comigo contos que terei prazer em dividir convosco para vossa alegria, bastando apenas que me ajudem, evitando que minha garganta seque, enquanto tento narrar de forma o mais vivaz possível minha história.

-És um mentiroso! – Responde alguém ao fundo do bar

-Gaiato! – Replica o bardo – Não queres ouvir não ouça, faça moucos seus ouvidos! Torça apenas para que a bela moça ao seu lado faça o mesmo, pois dificilmente qualquer assunto teu há de despertar nela tanta paixão e interesse quanto os fatos que lhes venho narrar.

Risadas ecoam, aplausos, brindes.

-Cerveja barata para o Bardo! Quanto antes começar, antes há de terminar – grita outro.

-Começaria a narrativa pela descrição dos pássaros de ferro…

-Ah, outra vez!

-…mas duvido que acreditem que se viaja na barriga de tais engenhos, nem eu mesmo acredito, portanto me furtarei a narrar tais ocorrências.

Ao sair da barriga da fera cansado e com frio,
me vi numa terra estranha
onde comigo falavam
como se estivessem a fazer troça de meu linguajar.

-Não era pra rimar?!

-Ora, não me interrompa! Apenas ouça e acompanhe as notas!!!

Não tardou cheguei à Britânia onde,
como de se esperar, chovia.
Uma chuva fina, constante, sem nuances,
Parecia uma umidade – que caia.

Antes mesmo de buscar uma estalagem
tratei de aplacar minha sede
E numa taverna tal qual essa
Bebi, então, minha primeira cerveja.

Quatro dias se passaram
lúpulo, malte e levedura
e no decorrer de tal ventura
pouco passeei, muitos amigos encontrei

Fui à terra dos diques e canais
Dos sapatos de madeira e das ervas medicinais.
Dizem que são boas para os olhos.
Não sei, pouco me lembro.

Lembro sim de ameaçadoras montarias.
Cavalos sobre rodas vindo de todos os lados
Nem mesmo às carruagens respeitavam
que dirá os que à pé estavam.

Foram seis os dias nesta bela vila
onde fui assaltado por experiências únicas.
Trufas mágicas.
E pinturas que se mexiam de um artista sem orelha

-Antes fosse eu! – gritou outro gaiato, que recebeu um sorriso e um grunhido como resposta

Recuperado, prossegui viagem rumo ao Este
a uma terra que não faz juz ao nome.
Notável por sua beleza
e pela das que lá vivem.

Admirável também por suas estátuas.
Tantas, tantas, tão formosas
Seriam elas os verdadeiros habitantes?
Seriam as pessoas mera paisagem?

Quatro luas depois fui à terra de Leonardo.
De Sforza, Verdi e da bisteca – à milanesa, claro.
Lá visitei familiares
em meio a uma jornada gastronômica sem precendentes

-A quem isso importa?

-Ora, quieto ou parto a tua cara!

Estive em estranhas feiras
Dedicadas, vejam só, a mesas e cadeiras.
Pra que tantas? – perguntei
Em geral basta uma esteira.

Finda a jornada, torno à casa
Pois como disse um poeta do norte-este
Só deixo meu cariri no último pau-de-arara

Algum de vós sabe quando ele sai?

Aplausos, risos e xingamentos ecoaram no salão. “Rimas pobres” – gritou um crítico ao fundo, sempre há de haver um,  “Mentiroso – gritou outro, mas o bardo estava contente. Havia voltado.

Reencontrou então amigos, amores e seguiu feliz com sua vida.

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Este post foi publicado em 30/04/2009 às 16:35. Ele está arquivado em crônica sobre nada, Generic post e marcado , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

3 opiniões sobre “O Bardo

  1. Guilherme em disse:

    seja o bardo bemvindo de volta!!

  2. Iris em disse:

    trufas mágicas!!! hahahh

  3. Que bela metáfora do retorno do querido amigo, uma companhia dessas que há que se cruzar continentes e enfrentar longas campanhas para se conseguir, quando não se é um sortido e vive-se numa bela cidade praiana! Ainda que com atraso e com mais de um desejo presencial de boas-vindas, rogo-lhe, agora virtualmente, boas-vindas às terras cariocas que tanto queres e tanto te querem.

    E o texto acabou servindo de esquente pra próxima tarde de sábado!

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