Quem não sabe escrever, desenha

Vânia Christina, 28 anos

A jovem atriz Vânia Christina (28) foi encontrada morta em sua casa, na manhã desta quarta-feira, 21 de agosto. Segundo a perícia o brutal assassinato se deu por volta das 21 horas da noite anterior, tendo sido a vítima asfixiada com seu próprio travesseiro. Os vizinhos afirmam terem visto o ex-namorado da atriz, o diretor de novelas Nelson Leite (52) sair por volta desse horário do prédio onde a atriz morava, à Rua Juraci, nº12. Nelson se encontra foragido.

Vânia era tida por muitos como o grande talento da nova geração de atores, vinda da Escola das Artes de Licurgo. Com vinte e oito anos de idade já havia participado de 12 novelas, tendo sido a protagonista de Três delas, incluindo Sertão das Águas, grande sucesso de público e crítica.

O Terrível assassínio chocou os fãs, que se aglomeraram ao redor do prédio onde a atriz morava para prestar as últimas homenagens. O prefeito de Nova Aurora, cidade onde nasceu, decretou luto oficial de três dias.

É, ficou bom isso.

Talvez eu devesse explicitar melhor o fato de ser um crime passional… Tudo bem, é evidente que qualquer asfixia com um travesseiro da própria vítima se trata de um crime passional, mas eu saber disso é uma coisa, meus leitores saberem é outra.

Mas tá bom isso! Acho que é o melhor texto que eu já escrevi… Se eu juntar então todos os fatos que eu acompanhei da vida dela… Acrescido de um floreio aqui e outro ali, coisa que, honestamente, meu ainda que mal aproveitado talento confere, esse será o melhor obituário que eu já escrevi… Minha obra-prima!

Pra muitos eu sou só um obituarista. Minha profissão é juntar, armazenar, organizar e catalogar informações sobre celebridades, pra que o obituário esteja pronto pra ser publicado no dia seguinte em que a pessoa morrer.  Curioso, não? Alguns obituários lindos estão parados há anos, juntando poeira, e o desgraçado não morre!

Abutre. Pôxa, eu odeio esse apelido. Tá, tudo bem, admito uma certa frustração em ser um obituarista. Até os repórteres são mais respeitados do que eu. E eles que são abutres, em busca de más notícias – já viu boa notícia em jornal? Obituarista… eu sou escritor! Meu nome pertence ao panteão dos grandes, à Academia! Mas não, fico aqui, confinado no “arquivo-morto”. É como chamam minha sala na redação. A imbecilidade do termo chega a me dar nervoso, uma vez que tudo o que arquivo se refere à pessoas vivas. Não vou ficar arquivando nada de alguém que já morreu, né?

Vânia Christina… Ela é um caso especial. Conheci a Vânia quando ela era ainda muito jovem, filha de uma conhecida de minha falecida mamãe. Já era linda. Provavelmente não se lembra de mim, se é que sequer me notou. Mas, confesso, trago comigo essa paixão e acompanho com muito carinho sua carreira.

E esse meu texto… tão bom… A intriga, a passionalidade… É perfeito! Eu tenho que publicar, mas como? O mais ingrato de ser um obituarista é o fato que a pessoa tem que morrer para o texto ser publicado e, por vezes, a morte em si é muito sem graça. Veja bem, um escorregão no banho, uma overdose, um acidente de carro, morte natural, câncer… Câncer é insuportável, a pessoa fica ali, semanas, meses, e eu com o obituário na fila de impressão e tudo o que eu posso escrever é um mísero “fulaninho morreu de câncer blá-blá-blá…” Desperdício!

Vânia Cristina… meu amor… você terá o obituário apoteótico que você merece. Que eu escrevi só pra você. Basta você morrer exatamente como eu escrevi.
Meu Deus! Estou falando em matar uma pessoa!!! Se bem que não… Não vou matar ninguém, aquele Nelson Leite, aquele diretorzinho de merda que vai… criatura abjeta… Tem idade pra ser o pai dela!!!

Mas como?!?!?

Hummm… Não vai ser difícil… Trabalhar num grande jornal tem suas vantagens… Sei que parece loucura, mas tem que ser feito… Vejamos, na rede deve ter… sim… telefone, endereço, email, cartão da biblioteca, tudo dele!

Tenho tempo. Estamos em abril, ainda, tempo pra minar a confiança dele, atiçar seu ciúme… é um crime passional, não pode haver enganos… E eu sei como…Diretor de TV. Já escrevi o obituário de muitos. Vaidosos ao extremo, em geral homossexuais enrustidos, cheiradores, afetadíssimos… Basta insinuar um caso da Vânia com alguém… Quem? Sim, outro diretor, um melhor que ele… Alberto Ribas, jovem, boa pinta… Nossa, as horas! Tenho que ir pra casa…
Não  consegui dormir. Pra falar a verdade, mal consegui chegar em casa. Era torturado por pensamentos:

-Deus, eu estou planejando a morte de alguém! Pior, de alguém que eu amo! E eu sou vegetariano!!!

Em casa, depois de muito perambular por botafogo, seu barulhento apartamento o sufocava. A ponto de ter acordado três vezes no meio da noite pra fazer pequenos ajustes ,estéticos, ao obituário de Vânia.

Cheguei cedo à redação e, como de costume, ninguém me notou. Sem demora, pus meu plano em ação.
Uma nota perdida – pra um desses blogs que não checam suas fontes – de que ela havia sido vista de mãos dadas pelo Leblon com tal Alberto. Aquele tipo de nota que se espalha rápido pela internet.

Me recostei em minha cadeira enquanto observava os resultados… Ri com gosto quando vi na caixa postal uma mensagem contando a mentira que eu mesmo havia inventado… E como ela havia crescido… As mãos dadas já haviam virado beijos!!!

Repeti o gesto seguidas vezes ao longo dos meses, sempre anônimo, acrescentando insinuações de alcoolismo e detalhes, por vezes picantes, enquanto acompanhava nas Contigos e Caras da vida o relacionamento deles ruir.

Era preciso agora incitá-lo à violência. Ela já havia sido notícia de um caso de agressão a uma então namorada… Doeu ver fotos de Vânia com a cara abatida e enormes óculos escuros que mal disfarçavam os hematomas. Doeu, mas não tanto. Inegavelmente senti um prazer ali, algo quase sexual. Quase uma inveja. Queria que tivesse sido eu batendo naquele rostinho lindo que tanto me torturava.

A publicidade negativa, somada aos boatos de alcoolismo provocaram o encurtamento da novela.

As notícias do rompimento do casal não tardaram a chegar às capas das revistas de fofoca. Em contrapartida, notava em mim que o Rubens introspecto de sempre ia cedendo espaço a um Rubens confiante, eufórico, por vezes.

Mas uma inegável ansiedade precisa ser confessada, pois conforme se aproximava do dia em que Vânia morreria, um nervosismo aflorava, uma preocupação se dava:  E se ele não a matasse? Ou pior, se ele não a matasse da forma que tinha que ser? Uma arma, uma faca? O texto não mais seria alterado, Rubens tinha isso pra si como um fato. E a data? A data era importantíssima! Como induzi-lo em tamanho nível de detalhe?

Corri riscos, sim mas tudo dentro do previsível. Me aproximei. Ainda e sempre anônimo, mas me aproximei. Comecei a insinuar. MSN. Orkut. Email, qualquer coisa! Os contatos eu tinha,  o que tornou tudo mais fácil. Me postei como  uma espécie de consultor anônimo. O mais incrível, me apresentei a Nelson como um anônimo. Um homem nessa situação se deixa levar pelos artifícios mais vulgares, e eu afirmava ser um amigo próximo de Vânia. Um amigo próximo, que não podia se apresentar pessoalmente mas que reprovava o novo romance que as revistas anunciavam. Afirmava saber cada passo dela. Mal sabia ele que, na verdade, eu dirigia os passos de Vânia. O diretor! Era EU! Insinuava as situações que seriam notícia no dia seguinte, ele seguia e, por vezes, elas se davam.

Agindo dessa forma, foi uma questão de tempo até minhas insinuações surtirem efeito. Acrescentando algumas referências literárias, livros e filmes com mortes semelhantes. Enaltecendo a sua honradez, a injustiça a que ele vinha sendo vítima, o que era uma questão de incitá-lo tornou-se uma questão de controlá-lo até o dia 21 de agosto.

Foi sublime. Foi uma sensação de controle inigualável. Controle nos pormenores. Potência. Enquanto eu o atiçava no dia 21 de agosto eu anunciava o enlace de Vânia com o novo namorado.  A gota d’água foi solta, de modo a precipitar os eventos que haviam de ser publicados. Nelson foi mais rápido que qualquer assessoria de impressa buscando negar o boato.

E assim se deu.

Por fim, Nelson se matou na cadeia. Meu texto foi publicado na íntrega, no dia 22 de agosto, data do aniversário de morte de minha querida mamãe.
Mamãe, Vânia… amo vocês

Que Deus as tenha.

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Esta entrada foi publicada em 08/04/2009 às 06:34 e está arquivada sob Generic post. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “Vânia Christina, 28 anos

  1. Pois é, certa feita vi uma entrevista com um obituarista e ele comentou que tinha vários obituários prontos, inclusive o dele próprio. Parece que esses caras têm bastante tempo sobrando. Os importantes pouco morrem. O pessoal que morro aos borbotões, os que ilustram a exposição PAF (Perfuração por Arma de Fogo) são citados na parte policial, na forma de aposto.

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