Quem não sabe escrever, desenha

A bunda

A bunda de metrônomo.

Tava andando na rua fazendo não-se-o-quê, indo pra não-sei-aonde quando o ocorrido que narrarei se deu. O não-sei-o-quê e o não-sei-aonde se justificam, não por uma necessidade minha de manter-me anônimo. Você não sabe quem sou e provavelmente nunca saberá – posso ser apenas algum personagem em algum conto qualquer, inventado ou não, ou seja, o quão anônimo eu sou é totalmente irrelevante, assim como você pra mim também é irrelevante. Caguei. Mas foi nas condições ditas acima em que a história aconteceu.

Ela aconteceu.

Não notei ela vindo. Confesso, estava distraído. Também não reparei quando ela passou. Não senti nenhum cheiro especial nem clarins surgiram entre as nuvens soando qualquer som celestial. Porra nenhuma. Mas a vi se afastando. Hipnótica. Suave. Ritmada. Uma poesia indo. Meus olhos pendulavam no ritmo dos seus passos.
Aquela bunda de metrônomo…
tic…tic…tic…
Sim, eu sei que o som mais adequado não seria esse. Talvez um tum…tum…tum… Algo como um surdo.
Mas o ritmo, o discreto pendular daquela bunda, aquele microsegundo, aquele leve pulsar entre a jogada pra direita, e a natural volta pra esquerda, fazia dela algo de excepcional. Pior, algo de excepcional que se afastava. Esqueci o não-sei-o-quê que eu ia fazer e fui pra um outro não-sei-aonde, que definitivamente não era o não-sei-aonde original. Comecei a seguir a bunda.

Eu me perguntava porque eu seguia aquela bunda. E não confundam com qualquer outra bunda, é A bunda, só minha, qualquer outra não se enquadra. Talvez não fosse nem exatamente por causa da bunda em si.

Mas a calça. Jeans.

Talvez aquela bunda em si não tivesse nada demais, pra falar a verdade. Não era grande nem pequena, mas elegante. Jovial.
Não era necessariamente redonda ou o que fosse. E por favor, não me venham com nenhum papinho de malemolência. Palavrinha molenga. Maaaaleeemolêêêiiiinssssssia é o caralho. Coisa de designerzinho que mora em santa teresa, ouvindo Jorge Ben (se chamar de benjor o cara dá chilique) e que tem bandinha de samba porque acha que é legal. Malemolência …

Enquanto eu pensava nisso, eu seguia a bunda.

A e sua calça jeans. Daquelas meio emo, justinha e escura, o que entrava em flagrante contradição com a voluptuosidade, ainda que discreta da bunda. Inclusive me arrisco a dizer, embora não haja risco nenhum em escrever isso pra você, posto que você não me importa em absoluto, que talvez apenas eu tenha visto tal encanteo. Enfim, escrevo aqui eu, leia quem quiser.

Continuei então a segui-la. A bunda entrou, então num desses cursos de inglÊs de quinta categoria. Foi quando alguma coisa aconteceu.

Hoje, pondo em perspectiva, vejo ali meu primeiro erro.

A bunda me olhou.

Ele me olhou.

Me deixei notar, imperdoável.

Não foi exatamente um olhar, foi algo de treslaio, relance. Mas houve.

A essa altura já estava perdido quanto ao meu não-sei-o-quê que nem por-quê, mas já não me importava. Esperei. Observei sua entrada enquanto lebrava de seu rosto. 14 anos, no máximo. Conheço o tipo. Parti, como acontecerta tantas outras vezes.

Mas voltei. Incorporei aquele cursionho de merda à minha rotina. Decorei seus horários ao ponto de estar sempre presente, fosse na entrada ou na saída.
Curioso isso.

Descobri que sentia mais prazer quando o via na saída da aula, cercado de amigos, e sentia que seu olhar me buscava. Eu, naturalmente, passei a ir de carro, de onde não podia ser visto. Mas notei que ele vez ou outra saía de mãos dadas com um outro colega. Modinha adolescente, mas para mim, encantadora.

Certo dia tomei coragem, coisa que até então nunca havia acontecido com ninguém. Me imbuí da superioridade que a idade me conferia , ainda que me sentisse um tanto inapropriado com as roupas que comprei pra impressionar.

Ofereci carona, ele aceitou. Fingi não saber aonde ele morava embora, claro, soubesse. Disse que queria saber se o curso era bom, que queria matricular meu filho e outros assuntos que eu sabia que ele gostava – depois de procurar no orkut dele – e assim começou a conversa.

Passei a dar carona pra ele todos os dias. Certa vez parei num posto de conveniência e comprei cerveja pra gente. Confesso ter sentido uma leve decepção quando ele me disse que preferia Bohemia, na minha inocência supunha que ele nunca tinha bebido. Mas como eu imaginei, ele era fraco pra bebida.
Infelizmente, pois daí veio o meu segundo erro.

Segurei sua mão.

O frisson, ah, o frisson!

Ah, o erro!

Um silêncio constrangedor se fez ouvir dentro do carro, apesar do Fall Out Boys insuportável no rádio.

Ele me pediu pra o deixar em casa, o que atendi, ainda que relutante.

Nas aulas seguintes ele não foi no curso. Aguardava, mas sentia os olhares de reprovação dos amiguinhos daquele viadinho olhando pro carro. Deixei de ir.

Rejeição!

Aquele viadinho não podia abrir a boca. O que eu ia falar pra minha mulher? Minha filhinha? Tinha que encontrar aquele moleque, explicar que tudo havia sido um mal-entendido.

Passei a ligar pra ele sem sucesso, passar em frente à sua casa e nada. Até que um dia ele me ligou, com aquela voz terna, estranha e lindamente grave para alguém tão novo, pedindo pra marcar um encontro.

Passei na casa dele e perguntei aonde ele queria ir. Subimos uma daquelas ruazinhas estreitas e sem saída do Jardim Botânico. Não sabia o que fazer, se tentava me explicar ou se fazia aquilo que eu queria com tanta força…

Antes que eu me desse conta ouvi as sirenes. Ah, o ódio! O viadinho filho-duma-puta se desvencilhou de mim e saiu do carro, correndo pra mãe, que vinha com os PMs. Ela era advogada, como eu me esqueci disso?!?!? Olhei pro banco e vi o celular ligado. LIGADO O TEMPO TODO! FILHO-DA-PUTA!

O caso não ganhou nenhuma nota nos jornais, me apressei em usar a influência de papai pra abafar o caso, o que, naturalmente, era interesse dele também.

Minha mulher me deixou, levou minha filha embora e eu me mudei pra Friburgo, até a poeira baixar.

Não vou entrar no papo fácil que eu sou apenas mais um, que eu posso estar do seu lado, essas coisas. Você sabe disso.

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Este post foi publicado em 25/03/2009 às 18:16. Ele está arquivado em crônica sobre nada, Generic post e marcado , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “A bunda

  1. Sim, pode ser qualquer um. Tipo a propaganda da Caixa tentando nos convencer de jogar na loteria. A sorte não escolhe. Pode ser Vampiro, ET, Capitão Panela ou Ghandi.

    Andou vendo o Cheiro do Ralo, lendo Lolita e freqüentando noitadas GLS, deu nisso daí…

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