Quem não sabe escrever, desenha

A história de Fulano e sua vassoura

Varrer a casa. Ato repetitivo em inúmeras instâncias, tanto pela sua natureza de repetição de movimentos quanto pela frequência com a qual precisa ser praticada.

Fulano sente um enorme prazer nisso. Embora haja dúvidas se o prazer está no ato de varrer ou no ato de fazer movimentos repetitivos, sim, Fulano sente um prazer inegável em varrer sua casa.
Por morar no primeiro andar de um prédio de frente a uma rua movimentada, não lhe resta opção que não se aplicar com esmero à atividade. Desde garoto Fulano gostava de divagar, e movimentos repetitivos costumam ser bons indutores de pensamentos. Enquanto varria, ele pensava no ato de varrer em si. Sobre o porquê de tanta poeira. Já tendo localizado parte da culpa no fato de ser primeiro andar, se pôs a pensar quais seriam as vantagens de se morar ali. As desvantagens saltavam aos olhos: barulho, poeira, falta de privacidade, perigo de assalto, perigo para sua gata (sim, fulano tem uma gata chamada Gata) mas onde estariam as vantagens, uma vez que nada (bem, quase nada) existe sem seu oposto?

Após muito esforço e muito varrer (a essa altura ele se aproximava da cama) pensou que afora não precisar de elevador e de ser mais fácil fugir em caso de incêndio não havia mais muito o que listar. Sorriu de leve ao pensar isso. Fugir em caso de incêndio, que espécie de idiota paranóico pensaria nisso? E varria.

Uma alternativa, naturalmente, seria manter as janelas fechadas, mas além do calor senegalês que faz na cidade em que mora (uma não tão aprazível cidade tropical, diria ele), Fulano fuma. Sim que espécie de idiota fuma? E varre. Varrendo nota que, também fumar, é um prazer repetitivo. No caso do idiota em questão, bastante repetitivo, poderia-se dizer. Imerso em pensamentos chega à sala.

Aos poucos vai reparando na quantidade de pó que sobe enquanto varre, e que seria preciso voltar a varrer assim que a poeira assentasse. A idéia lhe agrada. Neste estágio da empreitada, já é grande o monte de lixo. Fiapos, felpas, pêlos da Gata, células epidérmicas mortas, fuligem dos automóveis que passam, cinzas de seus próprios cigarros. Pensa então em seu ódio por aspiradores de pó. Preguiçosos demônios mecanicistas, barulhentos e pesados feitos para pessoas preguiçosas, mecanicistas e barulhentas. Pensa na simplicidade de sua vassoura de piaçava. Será que ela voa? E varre. Long Blondes tocando alto em seu computador enquanto chega à cozinha, último estágio da tarefa. De posse de sua pá de plástico, dá cabo do trabalho.

Sentiu um vazio. Uma incompletitude.

Pensou mais uma vez nas infinitas partículas em suspensão, aos poucos se assentando, se insinuando entre as frestas do piso, nas dobras do lençol…

Voltou a varrer. Diferentemente dessa vez. Varria o ar, tentando, com raiva, capturar as malditas. Sem sucesso, mas sem desanimar. Varria, varria a mesa, o sofá, a cama, a Gata, as janelas. Inspirava fundo, evitava expirar, sacrificando seus pulmões em busca de uma vitória impossível.

Varreu a casa mais dezessete vezes. O piso desgastado pela piaçava soltava fragmentos, se unindo à poeira. Se sentiu traído.

Fulano foi encontrado morto pelos vizinhos três dias depois. Havia varrido pra si uma cova.
A Gata sobreviveu.

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Este post foi publicado em 20/01/2009 às 22:39. Ele está arquivado em Generic post e marcado . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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