Quem não sabe escrever, desenha

Do alto dos montes

Li hoje esse trecho de Além do bem e do mal, de Nietzche:

Do alto dos montes

Ó meio-dia da vida! Tempo festivo!
Ó jardim de verão!
Inquieta ventura em se deter, atentar e esperar:-
Pelos amigos aguardo, dia e noite disposto
Onde estão, amigos? É tempo! É tempo!

(…)

Terei me tornado outro? A mim mesmo estranho?
De mim mesmo evadido?
Um lutador que a si mesmo subjugou demasiadas vezes?
Que demasiadas vezes se opôs à própria força?
Ferido e detido pela própria vitória?

É a segunda vez que eu leio esse livro. Na primeira vez eu pulei esse poema, por uma crença minha que um poema traduzido em geral perde o sentido. Uma poesia é um profundo jogo com as palavras, uma dança semântica, fonética, gráfica, métrica, que por vezes se perde em traduções (ainda assim é altamente recomendável ler a versão nova de fausto que foi reeditada em português recentemente). Divago.

O que me chamou muito a atenção nesse trecho foi o termo “meio-dia da vida”. De novo, crise dos 30, tá, mas eu achei um jeito tão interessante de pensar no caminho que a gente faz. O meio-dia é o momento mais radiante do dia. Ao mesmo tempo, em tese ele marca um meio do caminho. Diferente do meio do caminho de Dante, com o qual ele abre a Divina Comédia:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

É engraçado pensar o quanto essa idéia de meio do caminho é estranha, pois ao contrário da pedra de Drummond, no meio do caminho encontro uma confusão. Mas, me atendo à idéia do meio-dia da vida, a primeira coisa que eu pensei foi que o dia acaba quando se dorme (a julgar pelos meus dias, por volta das 7 da manhã do dia seguinte), e que sendo meio-dia, em geral, uma boa hora pra se acordar, que seja meio-dia então!

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Este post foi publicado em 29/12/2008 às 21:33. Ele está arquivado em Generic post e marcado , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “Do alto dos montes

  1. Valeu bebê. …rsrs…

    Abraço.

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